
imagem de F. Monteiro
tenho frio meu amor, a chuva não veio visitar-te.
de noite as pedras amaciam a tepidez das mãos
virá algum amante revolver as horas?
de repente a cidade apagou-se do meu peito
todos os rostos familiares apodreceram
inequívocos de boca aberta contra paredes imensas.
no chão da fábrica, onde estão costurados
os fetos invisíveis do medo, pernoitam
as inevitáveis aves da tua infância terrena.
deixo-me ficar entre os temíveis sulcos do voo
povoada pelos portões de ferro do útero.
lembro-me de existires perto dos rios.
dentro de mim
lembro-me de existires nos pés dos estranhos
que atravessavam a rua apressadamente
para lá da compreensão do ossos.
há muito que mastigamos eternas ausências
e observamos [absortos] a inevitabilidade das coisas
invocando o nome de deus como uma doença
diz-me se viverá latejante o coração perto da boca,
ténue e húmido como esta ansiedade que nasce na
soleira da porta de tua casa.
cláudia ferreira