Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

here is the house


vou gostando de chegar sempre mais tarde
à essência das questões.

tu és a verdade, não eu.
um amor quântico
um amor L&M vermelho
que fere a boca
com uma inocência tão desleal
como contida.

eu sou o ontem,
guardado no bolso das calças
cinzentas
os talões dos cafés
as asas de borboleta
lembranças de pedra
e água com gás
café curto
chávena escaldada
açucar mas não muito
de autocarro
-pode ser
no abismo
-na melhor das hipóteses


cláudia ferreira

Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

deixa-te estar, eu deixo-me estar
o tempo passa e não nos perdemos.
dobro lençóis, desdobro lençóis
assim o tempo passa e não nos perdemos.
deixa-te estar, eu deixo-me estar
a ferida toma conta do corpo,
ganhas um prémio literário
e morres a seguir na vci.

deixa-te estar, eu deixo-me estar
escondo o luto por trás do cigarro
não me perco nem te perco
dissolvo a monotonia na chávena com café.
nem a noite acontece
nem os travões funcionam
em cima do gato incendiário.


a tua ausência dá-me tempo para a leitura, releio os antigos títulos deixados no pó da cerejeira.
depois de ti construíram uma igreja na berma da estrada e, de vez em quando, é de lá que vem a música.
as mãos movem-se sozinhas na acidez dos móveis, comprei-te um espelho suave que sorri todas as manhãs.
lembras-te da cocaína de sevilha? como corria debaixo da mesa. PABLO, pablito! tira-lhe a mordaça!
ri-te meu amor morto da minha vida que a chuva não dói à superfície da pele como nas noites de novembro.


cláudia ferreira

Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

tenho uma opinião muito própria acerca da humanidade.

definitivamente eu não faço parte dela.

Domingo, 30 de Março de 2008



imagem de Luís Gonzaga Batista

se restar ainda algo que doa
que seja o ar a sair morno da tua boca
quando os semáforos nos adiam a morte

a noite mais
insípida do teu cor
po
fluorescente no âmago
de pássaro da rapariga
a cair plena
nas minhas
gengivas

os dias antes de ti
apenas tristes.



cláudia ferreira

Quinta-feira, 6 de Março de 2008

tudo tarda nas mãos.

no soalho flamejante a noite começa

assim:

- fica só o tempo de um abraço,
deixa escorrer a saliva no vício de perder o destino

(eu quero ver a parte de dentro.dos teus olhos.
o silêncio intra-venoso da lágrima)

trincar os lábios é
inevitável
confrontar-te com palavras bruscas

hematom:a


cláudia ferreira

Sábado, 15 de Setembro de 2007

" These White Lights Will Bend to Make Blue "


imagem de Raphael



eu nunca cheguei a casa.
tudo o que em mim morreu
estende-se ao longo de um corpo.
que não é o meu.

o filme acabou antes de poder dizer-te.
-não gosto de ti.
são as tuas pálpebras.
as tuas pálpebras absurdas a tilintar
no fundo dos meus olhos.

não sorrias, digo.

eu nunca cheguei a casa.
inventei nomes para a tua ausência
como se estivesses
ao fundo de todas as ruas.

é como se vivesses ainda do chão da sala
a criar teorias sobre o amor
dentro dos meus livros.

hoje não me apetece gostar de ti
nunca mais.



cláudia ferreira

Sábado, 8 de Setembro de 2007

há-de chegar um dia sem fim
em que morrerás lentamente
como nos meus sonhos.

das bocas não nascem palavras
como nos dias do passado
agora que nos ajoelhamos
perante muros de algodão incandescente.


cláudia ferreira